Quinta-feira, 06 de Agosto de 2020
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EDUCAÇÃO CONFESSIONAL A PARTIR DAS ESCOLAS ANEXAS (BATISTAS EM SERGIPE II)

Artigo da jornalista e escritora Sandra Natividade

Publicada em 30/07/20 às 01:55h - 223 visualizações

por Sandra Natividade


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 (Foto: Divulgação / Portal de Notícias/Viaje Sergipe)

Ensino e evangelização eram binômios que caminhavam juntos, a liderança batista sempre pugnou por educação de qualidade. No início do século XX  já se divisava essa prática se fizermos uma rápida retrospectiva, veremos a saga para implantação das primeiras instituições de educação confessional dos batistas brasileiros, Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil – STBNB, Recife/PE, 1902 por implemento do missionário Salomão Ginsburg e o Collegio Progresso Brasileiro depois de oficialmente entregue a denominação Collegio Baptista Brasileiro, São Paulo/SP, 1902 implemento dos missionários William Buck Bagby e Anna Luther Bagby; tanto Ginsburg quanto o casal Bagby missionários da abençoadora Junta de Richmond, bela e longa história conhecida em nossos arraiais. Entretanto, nos reportaremos não ao campo batista brasileiro como um todo, mas ao campo batista sergipano. 

Tudo começa com a igreja mais antiga do Estado a PIB de Aracaju, 1913, houve disponibilidade de seu templo para o ensino, essencialmente alfabetização dos filhos dos fiéis. Ideia inicial, suprir a falta de escolas e professores para seus membros, inibindo também a prática da solerte intolerância religiosa sofrida pelos evangélicos nos primórdios. O surgimento das escolas anexas reverberou na cidade estendendo-se ao interior. A criação dessas escolas para ministração das primeiras letras tinha seu valor, a concepção das instituições apontava todo o tempo para alfabetização dos filhos dos crentes, mas a demanda fez com que essas escolas fossem abertas para outras religiões. Nas escolas anexas não havia perseguição por se pertencer a qualquer religião, mas o foco das igrejas mantenedoras era contribuir com a alfabetização e naturalmente evangelização do alunado. Para a concepção de uma escola o pastor reunia sua igreja que deliberava autorização nas Sessões:

“A ideia de se criar uma Escola Anexa no meio batista em Sergipe geralmente partia do pastor da igreja, que sentia necessidade de ver o povo lendo. Porque naquela época existiam pessoas analfabetas. O assunto era levado para a igreja em “Sessão Regular ou Extraordinária” onde se discutia e autorizava a organização da escola, visando oferecer o ensino primário. Algumas escolas funcionavam à noite também, para atender aos adultos que queriam aprender a ler e escrever. A própria igreja escolhia na sessão a professora, que às vezes só tinha o quarto ano primário, outras tinham o pedagógico”. (A Luz Brilhou no Terra dos Cajueiros, Aracaju, 2013)

 Essas escolas tinham caráter particular, com mensalidade simbólica para ajudar na manutenção, as professoras moças e senhoras das próprias igrejas, estruturavam o currículo aplicado. Como essas instituições pertenciam as igrejas e na maioria das vezes funcionavam em suas dependências, havia um implemento religioso a ser cumprido pelo alunado a exemplo do cultivo de cânticos, oração e leitura da bíblia. Nas datas comemorativas, as apresentações aconteciam em forma de poesia, jogral, drama e música tudo inserido nos programas especiais das igrejas ou mesmo no expediente reservado a Escola Bíblica Dominical.

Em nosso tempo igreja sediando escola pode acontecer momentaneamente, mas não é o usual, pode acontecer por falta de instalação própria, diríamos que instalação adequada até se resolver a situação ocasional. Entretanto, episódios de perseguição religiosa constrangendo filhos de fiéis evangélicos na escola laica contribuíram para a efetivação dessa prática; os filhos dos “protestantes ou crentes” assim identificados nos primórdios sofreram represálias nas escolas consideradas padrão. Algo teria que ser feito e se fez, ‘escolas salvadoras da pátria’ até que os ânimos fossem acalmados. Decorridos alguns anos a prática das improvisadas escolas anexas foi perdendo sua eficácia, assim, novas escolas fundadas eminentemente por evangélicos, registradas oficialmente, foram se estabelecendo. Contudo, nos lugares mais distantes as pequenas escolas ainda resistiam para prover deficiências educacionais existentes. É bom frisar que o surgimento de campanhas de alfabetização como: Liga Brasileira Contra o Alfabetismo (1915) e, do Movimento Brasileiro de alfabetização – Mobral 1967, ocupando preferencialmente, o espaço físico de algumas instituições religiosas para ensinar a população contribuiu, a seu tempo, para erradicação do audaz e cruel analfabetismo.

 Não poderia discorrer sobre a existência das Escolas Anexas sem citar o pastor Coriolano Costa Duclerc, alagoano de nascimento, incentivador dessas escolas, grande e   notável educador, tinha experiência e fez diferença promovendo acesso à educação, absorvendo a mão de obra de profissionais existentes no meio religioso. Em 1923 Costa Duclerc foi pastor da PIB da Bahia, exercendo a direção de sua escola anexa. Designado como evangelista itinerante dos campos Alagoas e Sergipe, o extraordinário líder representava nossa Convenção nos mais longínquos rincões deste Estado, conhecedor das carências do interlan sergipano estimulava o campo a gerar ação educativa com as pequenas e eficazes escolas; na cidade de Estância/SE existia desde 1920 uma escola nos moldes confessionais Colégio Esperança (internato) pertencente ao professor Azarias Santos; em 1925 surgiu o Colégio Batista do dr. Moreira - Nossa Senhora das Dores/SE; em 1932, Aracaju, Colégio Batista Sergipense sob a direção do pastor Silas Alves Falcão para este estabelecimento a mídia da capital deu enfoque, informando:

“... a Escola Anexa denominada Colégio Batista Sergipense continua funcionando, ... para ensinar as letras aos filhos dos crentes, e amigos do Evangelho. ... a matricula tem preço cômodo e o colégio funciona provisoriamente, na Rua Lagarto, no templo da Primeira Igreja Batista de Aracaju ”.  (A Saga dos Pioneiros Batistas em Sergipe, Aracaju, 1913-2003)

A escola confessional continuou ativa e se fortalecendo, ainda em 1932 houve a fundação da Escola de Boquim/SE no município que lhe empresta o nome, sob a direção do pastor Antônio Francisco dos Santos; 1948 Escola Canãa em Itabaianinha/SE sob a direção da missionária Olga Rozzolini, na inauguração dessa escola Costa Duclerc em seu discurso discorreu sobre o objetivo de criar mais uma escola:

“...era cooperar na instrução popular de Sergipe e estimular outras iniciativas semelhantes onde houvesse necessidade. (...) não visamos com essa escola, ensinar religião porque na nossa convicção a esfera do ensino religioso é no templo e no lar, e a liberdade de consciência que queremos para nós, queremos também para os outros”. (A Saga dos Pioneiros Batistas em Sergipe, Aracaju, 1913-2003)

 

Em 1948, Aracaju, Instituto Batista de Aracaju, direção do pastor José Bernardo de Oliveira; 1958 Escola de Alfabetização mantida pela igreja Batista de Nossa Senhora da Glória/SE; 1962 na Igreja Batista Brasileira de Aracaju/SE - Educandário pastor Manoel de Araújo Góes, direção da professora Ildonê Santos e, 1963 Escola Anexa em São Cristóvão/SE direção do pastor Antônio Francisco dos Santos. Fizemos destaque nessas escolas só para citar um pequeno universo, certamente, muitas outras existiram umas com maior ou menor extensão, mas a verdade é que abençoaram parcela significativa do alunado onde estavam inseridas.

A saga empreendida pela Convenção Batista Sergipana na seara da educação confessional continuou; na década de 1950 a persistência de uma comissão denominada Junta de Fundadores eminentemente formada por professores membros da Segunda Igreja Batista de Aracaju, composta por: Manuel Simeão Silva (pr.), Josué Costa (pr.), Hilda Sobral de Faria, Benjamita Santos Silva, Ruth Cunha Amaral, Jérsia Lobão e Maria de Lourdes Oliveira, fez a concretização de uma instituição  que se tornaria sólida bem representando o nome dos batistas sergipanos, sob a designação de Instituto Pan-Americano de Ensino, organizado em 15 de novembro de 1951. O Pan-Americano foi instituído para ministrar educação aos filhos dos evangélicos, entretanto, a história se repete, apesar da especificidade, a demanda por parte de diversos seguimentos da sociedade, fez com que a matrícula posse aberta para alunos de outros credos e denominações religiosas. A designação do Pan-Americano por algumas vezes, foi alterada atendendo determinações da legislação e das reformas promovidas nos âmbitos estadual e federal, por exemplo, em 1952 passou a designar-se Educandário Americano Batista, 1980 nova mudança Escola de 1º grau Batista Sergipana e finalmente em 1983 Colégio Americano Batista - CAB, instituição com notória credibilidade nada a dever aos destacados colégios de Aracaju. Neste exercício de 2020, o CAB que a cada ano é enobrecido pelos valores que agrega, completará 69 anos de fundação, considerado como um dos melhores colégios da capital sergipana.

A visão e o compromisso evangelístico e educacional perfazem a caminhada dos batistas que veem nesses pressupostos basilares verdadeira difusão de valores para os cidadãos. Prosseguir é preciso e, mais uma instituição foi organizada, fato ocorrido na 42ª Sessão Ordinária da Convenção Batista Sergipana realizada na acidade de Tobias Barreto, em 30 de outubro de 1988, daquela sessão histórica sairia a fundação do Instituto Teológico Batista de Sergipe-Itebase. Para a recém-criação do Instituto com sede em Aracaju, membros não só das igrejas batistas, mas de outras denominações poderiam aperfeiçoar seus conhecimentos teológicos no próprio Estado, a grade da novel instituição disponibilizava cursos de: Teologia, Educação Religiosa e básico em Música Sacra. A casa de profetas dos sergipanos em franco desenvolvimento se aperfeiçoava. Posteriormente, o Instituto recebeu nova designação passando a Seminário Teológico Batista Sergipano-Setebase, instituição detentora de parceira pedagógica e acadêmica com o Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil-STBNB. O Setebase é um dos melhores parceiros da educação teológica e dos cursos que mantém. Nutre o campo sergipano e além-fronteiras com vocacionados compromissados que não necessitaram deslocar-se para outros Estados em busca dessas graduações específicas. Assim, segue o Setebase escrevendo sua história.

O alcance social dos batistas sergipanos segue a vertente da educação através da Casa Batista de Amizade - CBA organizando em 1993 uma instituição para atendimento a pré-escola no Bairro Santo Antônio, Escola Maye Bell Taylor, designação em homenagem a missionária idealizadora da CBA em Aracaju. A demanda de crianças residentes nas adjacências da instituição era enorme. Mães necessitavam trabalhar, afluindo aquela casa assistencial em busca de socorro, recebiam em contrapartida da direção, colaboradores e voluntários ajuda social e o afeto necessário. A ideia de uma escolinha perto de casa foi bem aceita pelos pais de tantas crianças, o ônus mensal era simbólico. A Maye Bell crescia, deu um salto de qualidade a olhos vistos. Quatro anos depois, houve a implantação do ano letivo do já Colégio Maye Bell Taylor atendendo do maternal a 2ª série do primeiro grau. Infelizmente em 2016, vinte e três anos depois a laboriosa instituição, para tristeza de muitos, fechou suas portas. Escolas são faróis do conhecimento para todos, casa dos saberes, baseada em correntes pedagógicas ou no embasamento filosófico teológico cada uma e todas elas têm sua importância na construção de uma sociedade esclarecida, justa e solidária.

O Estado é laico, entretanto, nos é dado livre arbítrio. As instituições confessionais de ensino evangélicas ou católicas são importantes em suas propostas de ajudar na formação integral do aluno, contribuindo com família, comunidade, nação. Essas escolas deixam herança extraordinária na vida dos seus alunos. Lembremos sempre da nossa carta magna que nos assegura a educação como direito de todos, ela nos torna iguais perante a lei e isto basta.

“Art. 205 – A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” (Constituição da República Federativa do Brasil -  Tit. VIII, Cap. III, Seção I - Da Educação)

“Para aprender, é preciso amar a disciplina; é estupidez odiar a repreensão.” Pv. 12.1 A propósito dessa citação bíblica do sábio Salomão, visualizamos o homem como um eterno aprendiz aquele que vai à escola para aprender, guardando a disciplina recebida como um prêmio, necessita de mestres que o corrija visando potencialmente aprimoramento dos saberes. Obrigada aos professores que pacientemente ou não nos ensinaram o caminho do saber. Aprendemos a caminhar livremente, esforçando-nos para ser agente multiplicador do bom aprendizado.




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1 comentários


Marcos Monte

30/07/2020 - 20:43:26

Os artigos de Sandra Natividade levam-nos a viajar no tempo numa linguagem rica e ao mesmo tempo fácil de assimilação. Parabéns, Sandra Natividade.


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