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VALDICE QUEIROZ, DE NORMALISTA A MISSIONÁRIA

Artigo da jornalista, memorialista, escritora e imortal Sandra Natividade

Publicada em 15/04/24 às 08:21h - 300 visualizações

Sandra Natividade


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VALDICE QUEIROZ, DE NORMALISTA A MISSIONÁRIA
Valdice Queiroz  (Foto: Arquivo da autora)

Por Sandra Natividade

 

    Fato considerado relevante nos arraiais Batista, era uma jovem apresentar-se voluntariamente para o preparo vocacional nas instituições de ensino missionário. Felicidade e responsabilidade da igreja local que enviava e, honra para os familiares da vocacionada. Para Valdice Queiroz foi diferente, a igreja cumpriu seu papel, mas na casa da jovem houve resistência familiar, o genitor não aceitou de bom grado, a menina deveria ser arrimo da família. Filha de Antônio Queiroz e Amália Maria de Jesus, Valdice Queiroz nasceu dia 08 de setembro de 1928, em Aracaju. Gostaria de dizer que a menina desfrutou de uma infância igual a tantas outras crianças de sua idade, entretanto os anais pesquisados dizem que “Valdice passou a infância e adolescência bastante atribuladas”. Os genitores com poucos recursos criaram todos os filhos na simplicidade que lhes era peculiar. O tempo passava célere e Valdice se desenvolvendo, era simpática e aplicada nos estudos. Senhor Antônio e d. Amália, apesar de não serem evangélicos não impediram que a garota desde praticamente os 8 anos de idade, vivesse entre evangélicos, naturalmente amigos da família, esses pertencentes a igreja pentecostal, instituição onde a menina fez sua decisão seguindo os princípios evangélicos.


Valdice em sala de aula

    Sempre decidida, Valdice passou a congregar na igreja Batista Brasileira de Aracaju onde cumpriu a ordenança cristã do batismo aos 17 anos, o celebrante foi o pastor norte-americano David Mein. A vocação de Valdice para o trabalho missionário era visível, foi convidada a participar de um programa do Dia de Educação Feminina de sua igreja onde fez o papel de personagem principal da peça “Porque sou de Cristo”, quando o pastor Vandir Bonfim fez o apelo, ela silente prontamente decidiu no coração. Valdice cursava na época o quinto ano do Curso Normal no Instituto Pedagógico Rui Barbosa em sua cidade Aracaju, recebendo o diploma de conclusão como professora, em 07 de dezembro de 1946, na época com 18 anos. Daí nova mudança passando para a membresia da Primeira Igreja Batista de Aracaju, Valdice tinha experiência na vida cristã onde assumiu os cargos: secretária da Escola Dominical, líder das Crianças, secretária da Sociedade de Moças, Bibliotecária e professora substituta de Jair Araújo Freire na Classe Samuel.  Em 1947 a afável normalista vocacionada, iniciou a trabalhar na área secular lecionando no Instituto Batista de Aracaju daí, naquele mesmo ano com o afinco que a qualificava, matriculou-se no Curso de Contabilidade da Escola Técnica de Comércio.

    A decisão ao Seminário aconteceu também nesse ano de 1947 em sua igreja, na semana de avivamento dos Batistas Sergipanos durante o Instituto Bíblico local, ministrado pelo pastor David Mein; a moça não resistiu ao apelo daquele que a batizou e, fez ali a pública decisão para o trabalho missionário.

    Pensamentos a acercaram: Valdice sabia da importância de sua decisão para estudar na Escola de Trabalhadoras Cristãs - ETC, mas também das implicações que enfrentaria no âmbito familiar:  sr. Antônio queria que a filha fosse o arrimo da família, enquanto ele infelizmente se entregava ao alcoolismo. Bem mais tarde, quando aluna da instituição Valdice fez a vontade do genitor enviando parte de seu sustento para a família. Todavia, continuou seguindo sua vocação, fato concretizado em março de 1948 quando finalmente, apresentou-se para o curso, com duração de dois anos na Escola de Trabalhadoras Cristãs localizada em Recife/PE, à época, voltada especificamente ao ensino de moças cristãs vocacionadas para o trabalho da evangelização. A ETC denominada Casa Formosa, recebeu Valdice, apenas com o apoio financeiro dos irmãos da sua igreja. A jovem facilmente adaptou-se a vida da instituição, trabalhando no internato, para custear as próprias despesas. Valdice, não vacilava e pedia constantemente a Deus por seu futuro campo de trabalho, não esquecendo de seu Estado Sergipe e com ele, as necessidades da família nuclear. Aos 21 anos, a moça concluiu seu curso na Escola de Trabalhadoras Cristãs.

    Era 25 de novembro de 1949. Naquele mesmo ano houve a necessidade de Valdice visitar a família, essa residindo não mais em Aracaju, mas em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Aproveitou a estada naquela cidade para apresentar-se e também receber orientações na Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira, instituição que a enviaria aos campos. Bendita visita, em janeiro de 1951, recebeu sua nomeação pela Junta para assumir o cargo como professora do Instituto Teológico Batista de Carolina/MA.

    Vale destacar aqui uma expressiva e expansiva frase da vocacionada Valdice: “Quero dar mais do meu tempo aos descrentes, abrindo uma Escola Batista. Não me conformo muito em ficar o ano inteiro dando aulas a salvos. É justo que haja quem os oriente e prepare para aos campos de batalha, mas concedam-me a oportunidade de trabalhar onde há menos obreiros e mais pessoas que carecem da salvação. ”  (Pedras Lapidadas – E não se cansarão, FREITAS, Ida de, 1978, p.142)

    Valdice, aos 22 anos, assumiu o cargo com a responsabilidade da direção: um internato com 29 moças, ministrar aulas de duas matérias religiosas, uma turma de admissão e as Assembleias do curso noturno. Está registrado na obra Pedras Lapidadas, que o Instituto causou espécie deixando o “prefeito de Carolina a pensar, pois a Escola pública da cidade disponibilizava sala ampla, professores preparados curso grátis e contava com dez alunos e, a Escola Batista estava a frente com uma média de setenta matriculados. O prefeito chegou a afirmar que o mérito deveria estar nas Assembleias dirigidas por Valdice”. Enquanto, isto Valdice se alegrava com a vontade de Deus em sua vida dizendo:  “Deus tem feito tudo para o meu bem-estar. Tudo aqui é tão completo que não sinto falta da vida fora deste Vale”.


Valdice e colegas

 GRATIFICANTE ITINERÂNCIA


    Nas primeiras férias de 1952 Valdice Queiroz e a colega Areli de Assis, saíram no dia 2 de dezembro, em excursão evangelística, o alvo era a cidade de Porto Franco, assim desceram pelo Rio Tocantins. Valdice fez um Relatório da Excursão enviando-o a “Revista A Pátria para Cristo”.

    No relatório a etecista roteirista informava prosseguir com a viagem; dia 04 no período da manhã, o barco-motor chegou ao Porto de Tocantinópolis/GO, dali dava para divisar do outro lado do rio, Porto Franco, nesse ponto a viagem estava mais curta e as suas moças seguiram para lá utilizando uma canoa. A profa. Lídia Falcão e a irmã Amélia Ortegal novas companheiras que integrariam a excursão já esperavam Valdice e Areli, essas chegaram e instalaram-se como puderam. E, ao raiar do dia 11 o pequeno grupo saiu de Porto Franco para a próxima visita missionária que seria em Boa Sorte, localizada ao lado esquerdo esquina do Rio Farinha, sede do trabalho do evangelista Leopércio Maciel, obreiro da Junta, assim mais de 18km aguardavam as entusiasmadas missionárias. As moças não demonstraram cansaço tinham muito contentamento para falar do Salvador Jesus ao sertanejo dos mais distantes municípios brasileiros. Continuaram a viagem e, a 18km pararam em Coité para esperar transporte. Certamente, no tempo próprio, chegaria um animal para as levar, mas chegou a noite e nada dos animais, assim Lídia dirigiu o culto assistido por um grupo regular de moradoresAlgo que chamava a atenção na época era a vitrola que elas levavam consigo, as pessoas gostavam de ouvir os discos transmitindo as mensagens de salvação. Viagens assim são imprevisíveis, e as moças enfrentavam sol escaldante e chuva intensa, entretanto, nada as intimidava foram vencendo os quilômetros que surgiam e aproveitaram para ir visitando e falando sobre Jesus e, foram passando por Buritirana, Paraiso, em cada parada realizavam culto e sempre ao final ligavam a inseparável vitrola que os ouvintes tanto gostavam.

    E a itinerância continuava, a cada dia as meninas paravam em um local diferente e realizavam culto a luz de lamparina enfrentando no percurso a aparente rejeição dos contatados, fato só amenizado depois da ministração e explicação da palavra de Deus. Naquela época muitas pessoas do sertão brasileiro estavam ligadas a sincretismos, superstições, crendices e informações incorretas sobre o evangelho. Entretanto, nenhum temor elas demonstravam, seguiam firmes, convictas da Palavra da verdade e nada faltava as abnegadas mocinhas; vida de compromisso e renuncia fazia parte do dia a dia, na hora do almoço comidinha simples, o cardápio: ovos fritos, farinha e café, o descanso se dava embaixo de uma árvore frondosa nas proximidades de um “ribeirão de água clara e abundante”. 

    Na noite do dia 17 o grupo chegou finalmente a Boa Sorte onde apenas duas famílias membros da igreja Batista em Porto Franco residiam. A recepção foi a melhor possível; encontraram-se com Leopércio Maciel, formado pelo Instituto Batista de Carolina que as acompanhou até Mato Verde e, assim aquelas moças passaram o Natal no sertão, plantando a boa semente do Evangelho de Cristo, auxiliadas pela vitrola único instrumento, se assim posso denominar, que tinham à mão e, que o povo queria ouvir,  era uma novidade por aquelas plagas sertanejas, isto acontecia em todos os povoados, a vitrola fazia sucesso, com músicas cristãs que alegravam o coração da gente humilde, sem recursos e acesso fácil as grandes cidades.

    No primeiro dia do ano novo, 1956, as excursionistas empreenderam viagem de volta tendo como acompanhante o bom Leopércio e, visitaram povoados nesse novo itinerário: Coroatá, Paraíso e Castelo.

    No domingo, 11 chegaram a Tocantinópolis e aproveitaram para visitar Marcolina Figueira de Magalhães, enviada a Porto Franco em 03.05.1932, a primeira missionária solteira enviada aos campos missionários pelos Batistas Brasileiros. (Pedras Lapidadas - Acima do encontro das águas, Freitas, Ida de, 1977, p. 38). A vida de Marcolina continua a reverberar pelo legado de trabalho aos campos neste país. Depois seguiu o pequeno grupo parando em Babaçulândia onde fizeram Escola Popular Batista - EPB pelo dia e culto à noite, chegando finalmente a Carolina dia 21 de janeiro coroando assim dois meses da gratificante viagem. Em Carolina Valdice ensinou pela manhã no Instituto Teológico e a tarde assumiu também à docência de Português e Geografia na Escola Batista, era dedicada ao trabalho missionário tendo à docência como carro chefe. No final do ano seguinte dirigiu o Programa de Natal contando história em flanela (numa flanela presa na parede, eram coladas figuras, ilustrações, desenhos) para explicações às crianças. Não reclamava da vida que levava sabia estar na carência e na abundância. Em Carolina a alimentação mudou, almoço composto por arroz e carne cozida. A tarde não parava para nada, muito criativa organizou com a ajuda de colegas uma árvore de Natal com estrelas recortadas em papel de jornal, algodão e Papai Noel feito de casca de ovo e, muita gente compareceu.  Dotada de liderança e carisma, no último dia do ano a responsabilidade de direção e ministração recaiu sobre Valdice, que mais uma vez ilustrou o sermão com história em flanela, fato que a caracterizava.

    Era setembro de 1954 ao completar 26 anos, conta-se que passou o dia evangelizando, três dias após recebeu carta e telegrama informando sobre seu genitor enfermo, deslocou-se ao Rio de Janeiro, só chegando três dias depois, o pai já havia falecido. As férias de novembro ela passou ao lado da família. Entretanto, ali continuava disponível ao trabalho missionário, assim atendeu convite da miss. Minnie Lou Lanier, líder Nacional das Mensageiras do Rei - MR para estar nos acampamentos promovidos pela organização em Belo Horizonte, Londrina, Rio de Janeiro e São Paulo.

    Valdice estava com tantos pensamentos: seguir a carreira missionária mesmo deixando a genitora de cabelos bancos, sentindo a ausência do genitor convocado pelo Pai e a separação dos seus irmãos ou, voltar a ensinar nas classes do Instituto em Carolina, reabrir a Escola em Pedro Afonso fechado há algum tempo, enfim, um turbilhão de pensamentos a invadiam.

O ACIDENTE

    Era 1955, partiu a normalista missionária em taxi aéreo que jamais voltaria. Os ocupantes dois pilotos, duas missionárias e um senhor. As missionárias eram Mary Ruth Corney secretária de Propaganda da Junta e Valdice Queiroz, com o objetivo, visitar a região norte, mais precisamente ao Vale do Tocantins, no Vale existiam igrejas, um dispensário, orfanatos, escolas e outras organizações. Areli, missionária e grande amiga de Valdice também iria, mas perdeu a hora e não embarcou. Em Itacajá (a instituição continua a existir, agora identificada no município de Porto Nacional/TO), a aeronave aterrissou, para uma visita ao orfanato F.F. Soren, feita a inspeção proposta, as missionárias conversaram com as pessoas e reembarcaram sob os olhares agradecidos de Honorina Ribeiro, Maria Amélia, seis crianças do Orfanato, quatro da Escola Batista e Jader Queiroz. A aeronave alçou voo, mas aqueles que foram embarcar o grupo ouviram e viram, então o barulho do motor falhando e a tentativa do piloto para voltar ao local deixado há poucos minutos, entretanto, a aeronave parecia não acertar a pista, o motor sempre a falhar, caiu o avião pouco distante daqueles que estupefatos não queriam acreditar no que estavam presenciando. Após o estrondo, grandes chamas e uma cortina de fumaça se abateu sobre o pequeno veículo. Replico esta frase que encontrei na obra Pedras Lapidadas, 1977: “Morreram abraçadas aquelas duas que minutos antes, unidas no propósito missionário, entraram no pequeno avião.”

    Itacajá, teve um cenário diferente, todos impactados estavam no culto de gratidão a Deus pelo infausto acontecimento e pelas missionárias que ali estiveram para ajudar a instituição.  Valdice Queiroz fez história, a instituição ETC onde se preparou para o serviço cristão evangélico, continua formando alunos, não mais como ETC, deu lugar a uma nova designação Seminário de Educadoras Cristãs, depois Seminário de Educação Cristã - SEC maior e mais abrangente, preparando homens e mulheres vocacionados para um serviço de atenção e amor ao próximo. Discentes egressos daquela casa de ensino criaram a Associação de Ex-Alunos do Seminário de Educação Cristã, com o apoio da direção da instituição e corpo docente criaram a Bolsa Valdice Queiroz. A Associação de ex-alunos do SEC, do mais novo ao experimentado no trajeto missionário, jamais esqueceu a história de trabalho, compromissado de Valdice. A Associação é responsável pela indicação em 1964 do seu nome como ex-aluna do ano.

    Valdice Queiroz, sergipana, faleceu prematuramente em 09 de abril de 1955 aos 26 anos, neste exercício ela completaria 96 anos de existência e 69 anos de sua convocação a voltar para a casa do Pai. A Associação dos ex-alunos do SEC é ativa, anualmente faz um Encontro Nacional com objetivos específicos, este ano, Aracaju foi contemplado para sediar em agosto de 2024 o grande Encontro desses profissionais espalhados no país e fora dele. É tempo de rememorar sergipanas que estudaram para servir, só para citar como exemplo (i.m.): Maria Clementina Lima, Honorina Ribeiro, Valdice Queiroz, entre outras.

 


 


Sandra Natividade/ 06/
Abril/2024 - Membro da Academia Literária de Vida desde 2013. 

 Pesquisa com incursões em:

Atas da PIB de Aracaju, 1947, 1949,

Manuscritos e parte de um diário de Valdice dos anos 1948, 1955, cedido pela amiga Areli de Assis Perruci a Biblioteca do SEC. Com a colaboração da profa. Ycléa Cervino/2024.

Pedras Lapidadas – Acima do Encontro das Águas. FREITAS, Ida de. Rio de Janeiro, Seminário de Educadoras Cristãs/Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1976.

Pesquisando Pedras Lapidadas E não se cansarão

Vol. II da Série Pedras Lapidadas. FREITAS, Ida de. Seminário de Educadoras Cristãs/Junta de Educação Religiosa e Publicações, Recife/PE, 1977.




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